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Mito ou Realidade: O Grande Colisor de Hádrons pode engolir o planeta?

Entenda por que o medo de um buraco negro na Suíça é puro exagero e física básica mal interpretada.

Thiago Almeida
Thiago AlmeidaAnalista de Tecnologia e Finanças Pessoais5 min de leitura
Imagem editorial ilustrando Mito ou Realidade: O Grande Colisor de Hádrons pode engolir o planeta?

Todo ano, principalmente quando o CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear) anuncia um novo ciclo de experimentos, ressurgem os memes apocalípticos. Tem gente do lado de cá do Atlântico genuinamente preocupado que os cientistas na fronteira da Suíça com a França vão apertar um botão errado e criar um buraco negro que engole o planeta. A internet adora um bom fim do mundo, mas quando a gente pára para olhar os números — e aqui eu falo como alguém que gosta de ver os dados frios antes de decidir onde alocar recurso ou risco —, a teoria do apocalipse desmorola rápido.

Vamos desmistificar essa máquina de 27 quilômetros de circunferência e ver onde a física encontra a realidade, deixando o sensacionalismo de fora.

"Se criar um buraco negro, ele vai sugar a Terra instantaneamente"

O medo vem da imagem de Hollywood: um redemoinho escuro no céu puxando navios e prédios. Na física real, a história é chata e segura. Se o Grande Colisor de Hádrons (LHC) criar um buraco negro — e esse é um "se" gigantesco —, ele seria microscópico. Estamos falando de algo menor que um átomo.

Para entender o porquê disso não ser perigoso, precisamos recorrer a Stephen Hawking. Ele teorizou que buracos negros não são eternos; eles emitem radiação (chamada de Radiação Hawking) e perdem massa ao longo do tempo. Para um buraco negro de massa estelar, esse processo leva trilhões de anos. Para um buraco negro microscópico gerado em um acelerador, a vida útil é de frações de segundo. Ele se desintegraria antes mesmo de sair do tubo de vácuo onde a colisão aconteceu.

Além disso, a gravidade é a força mais fraca da natureza. Um minúsculo buraco negro criado em laboratório teria uma gravidade tão insignificante que não conseguiria atrair nem mesmo um átomo de hélio vizinho, quanto mais o planeta inteiro.

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A matemática não fecha: energia cósmica vs. acelerador humano

Aqui entra o argumento que eu considero definitivo, o "trade-off" energético que invalida o medo. O LHC é a máquina mais potente que já construímos, conseguindo colidir prótons a uma energia de 13 a 14 TeV (tera-elétron-volts). Parece muito, e é, para a nossa engenharia. Mas o universo ri disso.

A Terra é bombardeada todos os dias por raios cósmicos. Essas partículas vêm do espaço sideral, muitas vindas de supernovas ou buracos negros supermassivos, e atingem a nossa atmosfera com energias que podem superar 100 milhões de TeV. Isso é milhões de vezes mais potente do que o LHC consegue produzir.

Se fosse possível criar um buraco negro destrutivo com essa energia, a natureza já teria feito isso há bilhões de anos. A Lua, que não tem atmosfera para filtrar esses raios, recebe esses impactos diretamente na crosta há 4,5 bilhões de anos. Se o LHC fosse uma ameaça, a Lua já teria virado um buraco negro ou teria sido destruída há muito tempo. O fato de ela estar lá, brilhando toda noite, é a prova experimental definitiva de que estamos seguros. O universo já fez o teste de segurança por nós, por eons.

"E as estranheletas? O que acontece se criarmos matéria estranha?"

Outro clássico do pânico online são as "strangelets", ou estranheletas. A ideia é que poderíamos criar uma forma estável de matéria estranha que, ao tocar a matéria comum, a converteria instantaneamente, criando uma reação em cadeia que transformaria o planeta em uma esfera de matéria estranha quente e morta.

Isso soa mais roteiro de ficção científica ruim do que física. Em 2026, com os dados coletados ao longo de quase duas décadas de operação do LHC e de seu antecessor (o LEP), não vemos nenhuma evidência de que a matéria estranha seja mais estável que a matéria normal. Pelo contrário, as regras padrão do Modelo Padrão indicam que a matéria estranha decai rapidamente para matéria normal. É chato para o cinema, mas ótimo para a continuação da espécie humana.

Esse tipo de especulação sem base empírica lembra muito as 4 coincidências históricas entre presidentes americanos que parecem roteiro de filme (e as explicações racionais). A mente humana adora conectar pontos aleatórios para criar uma narrativa ameaçadora, ignorando a probabilidade estatística e as evidências concretas.

O perigo real é financeiro (e ele já aconteceu)

Sendo analista de tecnologia e finanças, eu diria para você parar de se preocupar com o vácuo quântico e começar a olhar para o orçamento de manutenção de máquinas supersônicas. O risco real do LHC nunca foi físico para a população, mas sim para o bolso dos contribuintes europeus.

Em 2008, logo na inauguração, um mau contato elétrico entre dois ímãs supercondutores causou um vazamento de hélio líquido. O sistema de segurança falhou e quase 6 toneladas de hélio escaparam para o túnel. O resultado? Vários ímãs foram danificados e o projeto teve que ser paralisado por mais de um ano para reparos. O prejuízo? Estima-se que tenha custado cerca de 21 milhões de francos suíços na época, sem contar o custo de oportunidade de ter a máquina desligada.

Isso me lembra a engenhosidade da história curiosa de como o lápis de grafite salvou a indústria inglesa durante uma guerra. Às vezes, a solução mais simples e barata resolve mais problemas do que bilhões investidos em infraestrutura complexa que pode falhar por um simples fio solto. O LHC é um feito de engenharia magnífico, mas seu custo operacional é astronômico, e as falhas custam caro. Esse é o único "buraco negro" visível aqui: o do orçamento.

A ciência não é feita de "achismos", mas de verificação

A gente vive uma época onde qualquer tweet ou vídeo de TikTok com trilha sonora assustadora tem mais peso do que décadas de revisão por pares. Cientistas de todo o mundo passaram anos simulando esses cenários catastróficos antes mesmo de ligar a primeira tomada. A segurança do LHC foi revisada por comitês externos, independentes, e ninguém encontrou um risco plausível de destruição global.

O que ganhamos com isso? O descobrimento do Bóson de Higgs em 2012, que completou o Modelo Padrão da física. Estamos agora testando as fronteiras da supersimetria e da matéria escura. O risco real de parar a ciência por medo infundado é estagnar o conhecimento que pode, no futuro, gerar novas tecnologias — desde novas formas de geração de energia até avanços em computação quântica que mudarão o mercado financeiro e de dados.

O Grande Colisor de Hádrons não vai destruir a Terra. Mas o medo da ignorância, esse sim, se deixarmos crescer, pode paralisar nosso desenvolvimento. O custo de manter a ciência viva é alto, mas o custo de viver na ignorância é impagável.

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